Em meio ao recorde histórico de internações por lesões autoprovocadas voluntariamente, que incluem as tentativas de suicídio, em São Paulo, a campanha de Setembro Amarelo do Centro de Valorização da Vida (CVV) deste ano tem, como principal foco, reforçar que o diálogo é uma ferramenta poderosa para acolher quem sofre em silêncio.
Com o tema “Conversar pode mudar vidas”, o CVV quer ampliar ainda mais a conscientização sobre a importância de se falar abertamente sobre sentimentos e de se oferecer uma escuta genuína. Em entrevista ao Metrópoles, o voluntário Carlos Correia destacou que a campanha do CVV anda ao lado da ideia de conexão entre duas pessoas – que é impossibilitada pela inteligência artificial.
Para ele, nada pode substituir uma conversa acolhedora e empática entre duas pessoas, porque “ao ouvir o outro, eu tenho que ter a sensibilidade de ouvir um choro, uma pausa, uma reticência ali ou algo contraditório”, que é algo que as plataformas não conseguem fazer.
“A ideia não é ficar mexendo na ferida da pessoa e nem ficar transmitindo palavras de que ‘A vida é bela’. A ideia é ouvir a pessoa na sua dor. A proposta do CVV não é falar mais do que o outro, é ouvir o outro. Não deixar de falar, mas falar no sentido de criar um ambiente favorável para que o outro fale”, explicou Carlos.
Segundo o entrevistado, o intuito de um voluntário do CVV não é ficar falando as “palavras doces” que o outro quer ouvir. A intenção de alguém que ajuda uma pessoa em necessidade não deve ser como a inteligência artificial faz, que é se moldar de um jeito “doce e suave”, que não desagrada o interlocutor.
“A gente ouve a pessoa e procura fazer uma relação que envolva sentimentos em que o outro externe o que ele sente, por estar passando por aquilo. Ele nos conta um problema, aí a gente vai conversar com ele com o foco maior em ele abordar o problema e externar o que sente diante daquilo que está passando, sem ser um saca-rolhas. Eu [como voluntário do CVV] não sou um saca-rolhas, eu sou uma pessoa que vai permitir que o outro fale ou não fale”, disse.
Recorde histórico
Com 4.429 registros, o estado de São Paulo bateu o recorde histórico de internações por lesões autoprovocadas voluntariamente, que incluem as tentativas de suicídio. O crescimento do número acende um alerta para os cuidados com a saúde mental dos cidadãos, principalmente na faixa etária de 20 a 29 anos, que teve o maior número de casos, somando 1.287 notificações.
Em comparação a 2008, quando os registros começaram a ser feitos, o estado apresentou um aumento de 97,3%. Nos seis primeiros meses do ano, a média foi de 12,7 casos por dia.
Apesar de a tecnologia, as redes sociais, o “imediatismo” e o foco na performance afetarem muito os jovens, os fatores não se limitam à essa faixa etária. Além do alerta nas pessoas de 20 a 29 anos, os dados do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS) também chamam a atenção para o aumento dos registros de tentativas de suicídio na faixa etária de 70 a 79 anos, com um dos maiores aumentos em um ano.
Como ser voluntário no CVV
Fundado em São Paulo em 1962, o CVV é um serviço voluntário gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato. Em 2024, quando o estado bateu o recorde histórico, foram oferecidos, em todo o Brasil, 2,7 milhões de apoios.
Para se tornar um voluntário do Centro de Valorização da Vida, a pessoa deve ter 18 anos ou mais, ter ao menos quatro horas semanais disponíveis e concluir um curso preparatório gratuito. É possível realizar o curso em unidades físicas ou pela internet.
Ao fazer a inscrição de voluntariado, a pessoa pode escolher se vai atender pelo chat disponível no site do CVV ou através do número 188. Também é possível contatar o CVV pelo e-mail [email protected].
O curso consiste em encontros que, além de explicarem o histórico do CVV e das pessoas que procuram apoio, ensinam o que se espera de um voluntário e como funciona a relação entre “ajudante e ajudado”. Há também uma parte prática e uma entrevista, onde o candidato deve entrar em contato consigo mesmo e entender se consegue ser um voluntário.
A reflexão sobre si mesmo é apenas a primeira parte da segunda etapa do curso. Segundo Carlos, a pessoa que quiser continuar precisa passar por simulações de prováveis atendimentos e entrar em um plantão com acompanhamento – com reserva de sigilo.
Na entrevista, o futuro voluntário é convidado a refletir se ela quer mesmo participar do CVV. Durante esta etapa, é comum encontrar pessoas que estão vulneráveis e estão “mais para ser ajudada do que ajudar”, comentou Carlos.
Busque ajuda
O Metrópoles tem a política de publicar informações sobre casos ou tentativas de suicídio que ocorrem em locais públicos ou causam mobilização social, porque esse é um tema debatido com muito cuidado pelas pessoas em geral. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o assunto não venha a público com frequência, para o ato não ser estimulado.
O silêncio, porém, camufla outro problema: a falta de conhecimento sobre o que, de fato, leva essas pessoas a se matarem. Depressão, esquizofrenia e uso de drogas ilícitas são os principais males identificados pelos médicos em um potencial suicida – problemas que poderiam ser tratados e evitados em 90% dos casos, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria.
Está passando por um período difícil? O Centro de Valorização da Vida (CVV) pode ajudar você. A organização atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e Skype, 24 horas, todos os dias.
Fonte: www.metropoles.com


































