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Nativas não são regra em plano de arborização urbana climática

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Nativas não são regra em plano de arborização urbana climática

Belém (PA) – Quase nove em cada dez brasileiros já vivem em áreas urbanas, ou cerca de 180 milhões de pessoas, mostra o IBGE. A taxa é bem maior do que a média global, de 54%. Assim como no restante do mundo, essas pessoas são alvo de efeitos da crise climática, como enxurradas e calorão mais fortes e frequentes.

A situação se agrava porque as cidades – especialmente em regiões tropicais e equatoriais – já esquentam mais do que a média do planeta. Ou seja, muitas dessas “ilhas de calor” ultrapassaram a meta de aquecimento de 1,5°C, prevista no Acordo Climático de Paris, de 2015.

Na capital paraense e sede da COP30 da Convenção do Clima, a situação é justamente essa. Estudos do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) apontam que as temperaturas máximas na amazônica Belém aumentaram 1,9°C nas últimas cinco décadas. 

Mas o que já é grave pode piorar. A cidade tende a se tornar a segunda mais quente do mundo – com cerca de 220 dias anuais de calor extremo, logo atrás de Pekanbaru (Indonésia) –, num duro contraste com os cerca de 50 dias do início dos anos 2000. A projeção é do Carbon Plan, ong que usa dados e ciência para ações climáticas.

Não bastando o calorão, Belém assiste à mudança no regime de chuvas, que se tornam mais espaçadas e fortes, aumentando as chances de enxurradas e inundações severas. O aguaceiro “bíblico” que tem desabado durante a COP30 é um recado claro a brasileiros e estrangeiros.

Reforço climático arborizado

Uma alternativa para reduzir a disparada dos termômetros e a força das águas é plantar e manter árvores nas zonas urbanas. Algo indispensável para um país em que, nos últimos 10 anos, 84% dos municípios sofreram eventos extremos, descreve o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). 

Diante desse diagnóstico, o governo apresentou na COP30 um plano para ampliar a arborização e reduzir a exposição dos brasileiros aos efeitos da crise climática. A proposta é apoiar municípios de todo o país para identificar e agir em áreas mais quentes e mais sujeitas a inundações.

Chuva da tarde em Belem
Temporal se avizinha sobre a capital paraense. Foto: Renato Ribeiro / Creative Commons

Para viabilizar o projeto, as prefeituras têm financiamento, assistência técnica e tecnologias para disseminar árvores, contou Adalberto Maluf, secretário de Meio Ambiente Urbano e Qualidade Ambiental do MMA. “A arborização é uma das principais estratégias de adaptação a eventos climáticos extremos”, disse. 

Além disso, o governo quer regulamentar uma lei de 2018 que destina 10% do arrecadado com multas ambientais para arborizar e recuperar áreas degradadas. “Finalizamos um decreto e trabalhamos para aprovar uma política nacional de arborização urbana”, detalhou.

Contudo, o plano permite a adoção de espécies exóticas nas cidades brasileiras – as nativas de cada região ficam como alternativa, não como regra. “Os municípios receberão listas com sugestões de espécies e procedimentos para que atuem de forma técnica e sustentável”, disse Maluf.

Por outro lado, o mestre em Ciências Florestais e gerente-sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, André Ferretti, avalia que a ação deveria privilegiar as árvores nativas, especialmente para reduzir riscos à biodiversidade. 

“As nativas têm várias funções ecológicas. Já são adaptadas ao clima e à fauna regionais, têm resistência a pragas e grande importância para conectar ecossistemas naturais em unidades de conservação e outras áreas nos ambientes urbanos”, explicou.

O cientista alerta que as mudanças climáticas aumentam a chance de espécies exóticas invadirem novos ambientes. “Algumas plantas já são invasoras e devem ser evitadas sempre. Outras podem encontrar condições ideais e se espalhar, eliminando espécies nativas e impactando a fauna e a flora locais”.

Sombra na Caatinga
Árvores nativas sombreando a Caatinga, o único bioma exclusivo do Brasil. Foto: Junior1119 / Creative Commons

Já a diretora-executiva do Instituto Árvores Vivas, Juliana Gatti, destacou que, além de priorizar espécies nativas e adaptadas aos territórios, será preciso fortalecer economias e a logística. “Precisaremos ter viveiros suficientes para suprir a demanda que virá com a arborização”.

Isso será fundamental para replantar áreas importantes do ponto de vista ambiental e climático como as margens de rios e córregos, protegendo as pessoas de enxurradas e as aproximando da natureza em meio ao asfalto que predomina na grande maioria das cidades.

“Faz muito mais sentido para os municípios reconstruir parques lineares e preservar as APPs [áreas de proteção permanente, como as margens de rios]. A água fica mais limpa e barata para se tratar, e ainda se criam espaços de lazer e convívio”, afirmou Maluf.

O secretário ressaltou que também são incentivados projetos de agricultura urbana, parques naturalizados e outras soluções baseadas na natureza. “Quanto mais preservarmos as áreas de proteção permanente e os recursos hídricos, melhor será o futuro das nossas cidades”, avaliou.

Reforçando essa possibilidade, Gatti avaliou que o programa vai articular participação social e ciência para que a arborização contribua para o cumprimento de objetivos climáticos e ambientais. “É um desafio gigante, mas acredito em metas ousadas para transformar nossas cidades”, concluiu.