Após a atual liderança do Clube Atlético Juventus apresentar uma notícia-crime à Polícia Civil contra ex-dirigentes, um inquérito foi aberto nessa segunda-feira (20/10) para investigar suposto desvio de R$ 2,3 milhões que seriam aplicados em obras de conservação do Estádio Conde Rodolfo Crespi. A sede é localizada na Rua Javari, no bairro da Mooca, zona leste da capital paulista.
Entre os suspeitos, estão Antonio Ruiz Gonsalez, ex-presidente do Juventus; Ivan Antipov, ex-presidente do conselho deliberativo; Paulo Troise Voci, ex-vice-presidente do clube; e Raudinei Anversa Freire, ex-diretor de futebol.
Responsável pela apuração, o delegado Tiago Fernando Correia, da 3ª Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração e Combate à Lavagem de Dinheiro (Dicca), destacou a necessidade de detectar a possível existência de uma “associação criminosa, estruturada para lesar o patrimônio da agremiação”. A autoridade policial constatou que há indícios de “apropriação indébita majorada”.
“Malgrado os dirigentes do clube não sejam funcionários públicos, eles firmaram um compromisso formal com o município de São Paulo. Ao, supostamente, ‘enganar’ a prefeitura para obter a autorização da venda do potencial construtivo com a promessa de usar os recursos no restauro (algo que não pretendiam cumprir?), eles podem ter cometido o crime de estelionato majorado, pois a fraude foi praticada em detrimento de entidade de direito público”, analisou o delegado.
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Fraude no Juventus
- O estádio do Juventus é tombado como patrimônio histórico da cidade de São Paulo. Por isso, em 2022, o time firmou com a Prefeitura de São Paulo um termo de compromisso, relacionado ao potencial construtivo do estádio do Juventus.
- Liberado há cerca de três anos pela administração municipal, o montante milionário, no entanto, teria sido usado para pagar supostos empréstimos feitos à associação esportiva.
- Após uma sindicância interna, segundo documentos obtidos pelo Metrópoles, funcionários investigados por envolvimento na fraude foram afastados.
- O clube solicitou à polícia, por meio da abertura de um inquérito, “adoção das medidas investigativas cabíveis, a fim de resguardar o patrimônio moral e material do Clube Atlético Juventus e promover a responsabilização dos envolvidos”.
- A sindicância evidenciou “dupla lesão ao patrimônio do clube, com grave repercussão financeira e institucional”. Para evitar interferências, recomendou-se a suspensão preventiva de dirigentes do período de 2019 a 2020, assim como o afastamento cautelar de funcionários da tesouraria.
- Em setembro deste ano, a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas chegou a realizar uma proposta de multa devido ao descumprimento de termos do acordo que previa a reforma. O Juventus pode enfrentar uma dívida de mais de R$ 5,3 milhões, que também inclui uma restituição estabelecida pela gestão municipal.
- O Juventus sugeriu ainda que haja bloqueio das contas dos destinatários do pagamento e também sequestro das quantias ligadas ao termo de compromisso.
- O caso foi protocolado na 4ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Lavagem ou Ocultação de Bens e Valores.
O contrato do Juventus com a Prefeitura de São Paulo permitiu a transferência de 4.691,98 metros quadrados de potencial construtivo. Dessa forma, todo o valor obtido, exatos R$ 2.362.157,09, deveria ser aplicado em obras no local. Contudo, a revitalização não foi executada e o dinheiro teria sido utilizado para quitar mútuos de ex-dirigentes do próprio clube.
Além disso, conforme apurado, o cálculo da transferência foi baseado em valor abaixo do real de mercado. Foram considerados R$ 2.528,58 por metro quadrado. De acordo com especialista ouvido pela reportagem, o Juventus arrecadou muito menos do que poderia. O valor de recompra do potencial construtivo, inclusive, foi estimado pela prefeitura em mais de R$ 19 milhões.
Multa ao clube
Devido ao desvio de finalidade, em setembro deste ano, a Prefeitura constatou o descumprimento do termo e estimou uma multa de R$ 2,9 milhões ao Juventus. A proposta prevê que o clube devolva ao Fundo de Proteção do Patrimônio Cultural e Ambiental Paulistano (Funcap) o valor integral recebido.
De acordo com o cálculo oficial, a penalidade é de cerca de R$ 118 mil por mês de atraso, contado a partir de 17 de abril de 2023 até 5 de maio de 2025.
“Como os recursos não foram destinados às intervenções previstas, uma proposta de autuação foi encaminhada para análise do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp). Somente após a deliberação do conselho, o proprietário será notificado e terá prazo de 15 dias para se manifestar. Depois desse trâmite o processo seguirá para a subprefeitura responsável para as providências cabíveis”, informou a pasta, em nota.
O que dizem os envolvidos
Contatados pelo Metrópoles, os responsáveis pela sindicância alegaram que não podem comentar as apurações em andamento. O atual presidente do clube, Tadeu Deradeli, afirmou que não quer se pronunciar por enquanto.
Também procurado via assessoria de imprensa, o clube não respondeu oficialmente. A reportagem não localizou a defesa dos ex-dirigentes citados. O espaço segue aberto para manifestações.
Estádio
Também conhecido como Estádio da Javari, o Estádio Conde Rodolfo Crespi foi inaugurado em 26 de abril de 1925 e adquirido da família Crespi pelo Clube Atlético Juventus em 1967.
Atualmente, numa área aproximada em 15 mil metros quadrados, o espaço comporta 5 mil pessoas. No entanto, segundo o clube, já registrou a presença de 15 mil torcedores. Em 2019, o estádio foi tombado pelo Conpresp.
Fonte: www.metropoles.com


































