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Quem é o “careca do INSS”, lobista milionário das entidades da farra

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Quem é o “careca do INSS”, lobista milionário das entidades da farra

São Paulo — Dono de uma frota de carros de luxo, como Porsche e BMW, e com mais de uma dezena de empresas abertas em seu nome, um lobista discreto de Brasília é o homem procurado por associações ligadas à farra dos descontos sobre aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para conseguir entrar ou obter vantagens  dentro do órgão federal.

Ex-superintendente de marketing de uma gigante do ramo de planos de saúde, Antônio Carlos Camilo Antunes (foto em destaque), 60 anos, tem procurações para atuar em nome de entidades que cobram mensalidades associativas de aposentados e ganha dinheiro por meio de contratos de “consultoria” e até de serviços relacionados a redes sociais.

Ao público em geral, ele se apresenta como “representante” da indústria farmacêutica nos mercados de “saúde complementar e público” e afirma ter ficado dois anos à frente de um laboratório que fornecia medicamentos ao Ministério da Saúde.

Hoje, Antunes atua mesmo com suas empresas. São 15 ao todo, entre firmas de consultoria, construtoras e incorporadoras. Ainda há empresas em nome de parentes das quais ele também tem participação. É por meio de consultoria que ele presta serviços a entidades que querem ou mantém acordos com o INSS para efetuar descontos sobre aposentados, boa parte deles questionados na Justiça por terem sido feitos sem o consentimento do segurado.

“Careca do INSS”

Com boas relações e êxito nesses acordos, Antunes nunca foi servidor do órgão, mas é conhecido nesse mercado como o “careca do INSS”. O Metrópoles teve acesso a três procurações conferidas por entidades ao lobista. No texto de todas elas, consta que ele está recebendo poderes para atuar perante o INSS especificamente para manter ou firmar acordos de cooperação técnica.

Uma das procurações pertence à Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), entidade que, como mostrou o Metrópoles, foi a que mais cresceu em meio à farra dos descontos. Ela tinha apenas três associados em 2021, quando obteve o acordo com o INSS. Hoje, tem mais de 600 mil associados. Somente entre 2023 e este ano, seu faturamento saltou de R$ 1,8 milhão mensais para R$ 30 milhões.

A entidade responde a milhares de queixas na Justiça por descontos indevidos e tem sofrido condenações. Nos metadados da procuração, consta o nome de uma advogada de uma empresa pertencente ao grupo de saúde por trás da associação. Formalmente, ela foi registrada em nome de parentes e funcionários dessas empresas.

Duas pessoas ligadas à Ambec e que lidaram diretamente com o “careca do INSS” afirmaram que ele se gaba de ter procuração de diversas entidades para firmar os acordos, além de boas relações com diretores do órgão e até mesmo no Ministério da Previdência Social. No caso da Ambec, a associação é objeto de uma disputa judicial.

Em meio a essa disputa, que envolve acusações de fraude e até de laranjas em sua diretoria, o “careca do INSS” é mencionado como o homem da entidade junto ao órgão federal. Acusa-se, inclusive, que ele tem acesso a dados privilegiados de aposentados. A suspeita é investigada por órgãos de controle, que desconfiam do uso desses dados para filiar aposentados à revelia.

A Ambec nega todas as acusações e executivos da entidade afirmam ser ameaçados pelo ex-gestor com quem romperam. Eles rechaçam a acusação de que tenham comprado dados de aposentados do INSS e cometido fraudes.

Patrimônio

O “careca do INSS” é discreto, nunca apareceu no noticiário. Mantém apenas um perfil no Linkedin ativo em seu nome. Nos últimos anos, tem incrementado seu patrimônio. Nos últimos três, comprou três Porsches zero quilômetro. É dono de outros carros de luxo, que estão em seu nome e de suas empresas. Em 2024, comprou um casarão no Lago Sul, em Brasília, por R$ 3,3 milhões e demoliu o imóvel em junho.

Uma vez, o lobista prestou depoimento à Polícia Federal (PF), mas não na condição de investigado. Ele havia sido indicado pela defesa da Business to Business (B2T), investigada na Operação Gaveteiro, que apurou supostos desvios milionários no Ministério do Trabalho durante o governo Michel Temer (MDB). A empresa acabou punida em R$ 7,7 milhões pela CGU em razão de suposto pagamento de propinas e fraudes em contratos públicos.

Nesse caso, Antunes depôs por videoconferência. Ele rasgou elogios à empresa. Afirmou que ela deu grandes préstimos à gigante de planos de saúde para a qual trabalhou por dois anos na última década. Negou ter qualquer ligação com ela ou seus sócios.

Procurado pelo Metrópoles, Antunes não quis responder aos questionamentos feitos pela reportagem. Em uma conversa que durou 42 segundos, ele disse que não tinha “nada a declarar” quando foi perguntado sobre seus contratos com as entidades. “Você ligou para a pessoa errada”, disse, antes de desligar. Ele também não respondeu às demais perguntas, encaminhadas ao seu WhatsApp, sobre sua atuação e sua relação com agentes do INSS.

Fonte: Oficial