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sotaques plurais marcam diversidade cultural de São Paulo

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“Sotaque? Você conhece o William Bonner? Referêêência. Esse cara não tem sotaque nenhum. Aliás, tôôdo o jornalismo procura ser neutro, e ser neutro é ser paulistââno”, diz ao Metrópoles o personagem Menzinho, interpretado pelo humorista Fausto Carvalho, sentado em um estúdio na zona sul de São Paulo.

Já virou motivo de piada. Se você nasceu em São Paulo, provavelmente já ouviu alguém comentando sobre seu sotaque — aquele mesmo que o paulistano nem percebe que tem. Quem é de fora lembra, de cara, a pronúncia de palavras como “póórrrta” e “choveiiiindo” dos nativos da capital. Tem também o “mano” e o “É nóis”. E tem quem diga que paulistano fala cantaaando, como um italiaaano, meu!

Tantas referências não surgem à toa: as diferentes culturas que ajudaram a formar a metrópole que faz 472 anos neste domingo (25/1) contribuíram para tornar o jeitinho de falar em São Paulo tão diverso quanto sua população. Paulistano não tem um sotaque, não. Tem vários.

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A pluralidade é tanta que surge um cenário inusitado por aqui: pessoas que nasceram em São Paulo, mas são descendentes de cidadãos de fora, ou que simplesmente vivem em bairros diferentes, têm seus sotaques próprios. Se estiverem lado a lado, dois paulistanos podem até estranhar o jeito de falar um do outro.

Como acontece com Jean Santiago, de Guaianases, e seu amigo Rafael, da Mooca.

De “meu” a “mano”, São Paulo acomoda uma infinidade de sotaques que se espalham das periferias à Faria Lima. E o Metrópoles foi aos quatro cantos da cidade para entender melhor esse falar tão singular, e ouviu moradores, especialistas e humoristas que encontraram, em tamanha riqueza linguística, um jeito especial de fazer graça.

A cadência dos “faria limers”

Na região da Faria Lima, avenida conhecida por abrigar o principal centro financeiro do país, o sotaque do tipo “Ameinda” é a marca registrada. Personagem da humorista Jessica Diniz, Ameinda é uma paulistana workaholic do mundo corporativo, que faz sucesso na internet com seu modo peculiar de falar.

A voz por trás da “Ameinda” das redes sociais também é paulistana. A atriz Jéssica Diniz diz que, às vezes, força tanto o sotaque que parece estar falando a língua do “i”. É um perfil mais próximo de seus atuais vizinhos de Perdizes, na zona oeste, diferente do lugar onde viveu no passado, na zona norte.

“Comecei a fazer sempre o mesmo sotaque quando passei a falar do mundo corporativo, porque eu acho que combina super. É o sotaque do mundo corporativo. Pelo menos do que eu conheço, da minha referência, que é a Faria Lima, região central. Pinheiros também tem bastante”, diz.

Paulistano tem sotaque?

Mas por que, se há tantos sotaques em São Paulo, tem gente que não consegue perceber que o paulistano tem um modo próprio de falar?

A linguista Lívia Ouschiro conta que um levantamento realizado pela Universidade de São Paulo (USP), em meados de 2010, perguntou aos paulistanos se eles tinham ou não sotaque.

“Algumas pessoas disseram que não, ‘Eu falo como no jornal, na TV’, entendendo que essa é a forma padrão de se falar e que daí não haveria sotaque”, afirma a pesquisadora, que é professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para a humorista Raquel Real, que viraliza nas redes sociais com vídeos marcados pela fala acelerada e pelas gírias bem paulistanas, não há dúvidas de que tem, sim, sotaque em quem vive em São Paulo. Ela até se surpreende quando seus seguidores não reconhecem sua origem.

Raquel diz que “tem gente que ama, tem gente que odeia” seu jeito de falar. “Se você está incomodado, imagine eu, que tenho que ouvir todos os dias”, diz para quem não gosta do que escuta. “Comecei a zoar, dizer para me pagar uma fono.”

Estudiosos da língua dizem que o jeito de falar do paulistano é resultado da mistura de várias influências. “É no encontro de povos diferentes, com características linguísticas diferentes, que se foi formando o português paulistano”, explica Lívia.

O toque caipira do “R”

Até o polêmico “r” retroflexo, aquele com toque de caipira de “pórrrta”, pode ser resultado desse caldeirão de culturas em São Paulo. Alguns especialistas atribuem sua origem a um possível legado dos povos indígenas, embora não haja um consenso sobre essa teoria.

“As pessoas se viram obrigadas a falar português e falaram ‘português com fonética tupi’. […] Palavras como mulher, [eles] disseram ‘muié’; trabalho, ‘trabaio’; porta, disseram ‘pórrrta’, com esse R mole, esse R retroflexo”, explica o professor da USP e especialista em cultura caipira Ivan Vilela.

Hoje, o “r” marcado, de tão paulistano, é presença frequente nas músicas de rap. Como em “Nego Drama”, quando Mano Brown fala “Um bastardo, mais um filho pardo sem pai”, ou em Vida Loka Pt.1.

A letra que é a marca de São Paulo também aparece na fala da garçonete Renata Soares Santos, de 47 anos. Paulistana filha de nordestinos, ela nem percebe que mistura o clássico “r” caipira ao sotaque da terra de origem de seus pais.

Como Renata, vários paulistanos trazem, no jeito de falar, o som que escutam em suas famílias e comunidades. Na Mooca, zona leste, muitos moradores reproduzem até hoje a fala cantada dos italianos que ocuparam o bairro no final do século 19.

Já na Terra Indígena do Jaraguá, zona oeste da capital, os moradores da Aldeia Tekoa Ytu falam português com sotaque guarani.

Ou seja, em São Paulo tem sotaque que vem da família, da quebrada, com toque caipira, com acento italiano da Mooca e com jeitinho faria limer — no mínimo.

Mas, se por um lado, as influências tornaram o paulistanês tão plural, por outro, na São Paulo assolada por desigualdades, o preconceito também impacta o jeito de se expressar. David Popygua, da aldeia Tekoa Ytu, por exemplo, diz que tem que adaptar seu sotaque dependendo do lugar onde está.

“Como eu já sofro preconceito ‘só de olhar’, [eles dizem] ‘é boliviano, é indígena’, e eu sou preto também, é melhor eu falar um português ‘melhor’, pra não sofrer tanto preconceito. Não falar muita gíria. […] Quando eu falo de uma forma que eu sinto que é culta, as pessoas me respeitam mais”, afirma.

Preconceito linguístico e orgulho periférico

A pesquisadora da Unicamp diz que talvez tenha sido também para evitar o preconceito linguístico que os nordestinos que chegaram a São Paulo passaram a falar o “r” caipira. Hoje, são os filhos desses migrantes os que mais falam o “r” retroflexo na capital paulista.

Nas periferias da cidade, no entanto, um grito de resistência emerge, nos últimos anos, contra essa “exclusão” linguística. Manter na fala traços que identificam a origem periférica paulistana, com seus sotaques, gírias e dialetos próprios, é visto agora como pertencimento.

Isso acontece quando alguém que já saiu da periferia diz o “É nóis” no meio de uma conversa, para marcar que veio dali – ainda que conjugue segundo a norma-padrão da língua na hora de escrever um documento, por exemplo.

Esse sinal de pertencimento aparece também no humor, como nos vídeos de Matheus Mosca, o Mosca Chapada das redes sociais. Nas cenas, ele brinca com o dialeto típico de quebrada. “O paulista não fala que vai sair à noite. Fala que vai dar um peão, um rolê ou dar um jet”, diz ele, em uma gravação num terminal de ônibus.

“É muito rico isso tudo. O paulista é muito criativo pra criar gíria, pra criar sua própria forma de se expressar de acordo com o lugar em que vive”, diz Matheus ao Metrópoles. “Todo mundo tem seu dialeto, mas eu sou mais o nosso aqui.”

Para a professora Lívia Ouschiro, esse movimento linguístico está adquirindo um novo significado em São Paulo, que  é “Eu sou da periferia”. “Isso é algo que eu valorizo, de que eu me orgulho.”

Esse sotaque, ou melhor, esses sotaques paulistanos sintetizam a riqueza cultural de uma metrópole em constante transformação. Neste domingo, celebrar o 472º aniversário da cidade com jeitos tão plurais de se expressar é lembrar o que faz de São Paulo um lugar tão especial.

 

Fonte: www.metropoles.com